quinta-feira, 15 de março de 2012

A Igreja do desencontro

         Queridos sócios e educadores Maria Peregrina, volto a escrever para você com muita alegria e entusiasmo. Porque sempre é bom entrar em contato com aqueles que acreditam numa obra como a nossa. Uma obra como a Igreja.
          As Missões Maria Peregrina é uma obra da Igreja Católica, isso já você sabe. Mas quero afirmar que as Missões precisam ser como a Igreja. Isto porque toda obra, como todo fiel, corre o risco de estar na Igreja e não ser como a Igreja. Da mesma forma que viver com Jesus é bem diferente viver como Jesus.
          Lembro que o extraordinário Pe. Jorge Hermes ao citar a passagem: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, dizia que há uma sequencia nesta frase de Jesus, isto é, para se chegar à Vida é preciso primeiro começar pelo Caminho para depois passar pela Verdade. Porém, Pe. Jorge, explicava que conhecemos a Verdade muito bem, que é Jesus, mas o Caminho é bastante esquecido, porque é no Caminho que a vida é provada. Os santos, por exemplo, foram santos porque viveram muito bem o Caminho. Sei que o Caminho é Jesus Cristo, como a Verdade e a Vida, mas o Caminho é feito de atitudes sérias acompanhadas de suores e muitas lágrimas. É daí que provém a santidade. O Caminho educa e santifica. Se fossemos pintar um quadro disso, Jesus estaria soberano e sozinho ao lado da Verdade e da Vida, mas no Caminho estaria Ele sendo levado por nós. São nossos pés, nossas atitudes e postura que pintam o Caminho.
          O Caminho, portanto, é a vida não só com, mas como Jesus, como a Igreja. Sabemos que a grande meta do Caminho é amar como Ele amou. E o grande modo que Ele nos amou foi amar a nós sem nós. O amante sem os amados, essa era a tradução da cruz. Na maior expressão de amor de Jesus aos homens que era a cruz, os próprios não estavam. A perda dos amados, a perda muitas vezes de si mesmo e de Deus, com fidelidade ao Caminho é a mais pura santidade, o modo mais perfeito de viver o Caminho.
          Portanto, não busque a Igreja como lugar de encontrar consigo mesmo, porque é nela que acontece muitas vezes o desencontro. Procure a Igreja para viver como ela, que muitas vezes se perdeu no Caminho, mas nunca fora do Caminho. È com muita preocupação que vejo muitos homens e mulheres aderirem a “igrejas” porque se encontraram na vida. Acredito que se encontraram. Contudo, creio mais ainda que, Jesus provoca durante a caminhada algumas perdas, até mesmo de si ou do próprio entusiasmo.
           Encontrar com Jesus sempre será o objetivo de todo fiel, mas é preciso saber que o melhor encontro com Jesus acontece quando os sentimentos não conseguem mais sentir, deixando esse encargo apenas à fé.
          A Eucaristia, por exemplo, é o lugar que não se vê Cristo na forma de Cristo, porque tudo é forma de pão. Porém, é ali que Cristo está; imagem de pão, presença de Deus. É o desencontro para o encontro.
          A Escola Maria Peregrina é assim. Se você quiser encontrar na escola uma pedagogia politicamente correta se decepcionará. Porém, se quiser aceitar os desencontros da pedagogia, encontrarás mais que um método educacional moderno, mas a si mesmo.        


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Outros carnavais: a religião do carnaval.

Sinceramente há muito tempo tive a curiosidade de estudar profundamente o carnaval no Brasil. Mas pensava: estudar para que? Visto que o Carnaval é claramente uma festa da cultura brasileira; ponto final. Ledo engano. O carnaval é o maior evento religioso do mundo. Um evento que não é cristão e muito menos católico. É maior que o ramadã islâmico, que a páscoa dos católicos e a marcha para Jesus dos evangélicos. Isto porque o carnaval é o auge da manifestação dos cultos de candomblé e umbanda contagiando uma nação inteira.
Se você conseguir recordar, lembrará que a maioria das escolas de samba em seus enredos fazem alusões a orixás e outras expressões dos cultos afros. A maioria dos carnavalescos (responsáveis maiores pelas escolas de samba) são filhos-de-santo (título dado a um participante fiel dos cultos do candomblé ou umbanda) ou pais-de-santo. Também vai lembrar que um dos carnavalescos das escolas do Rio de Janeiro em entrevista ao vivo no Bom Dia Brasil (programa da Rede Globo), na segunda ou terça-feira de carnaval do ano passado, estava vestido de vermelho e pé descalço. Ele dizia na ocasião que uma das “entidades” do candomblé teria pedido a ele para vestir daquela maneira. Vai perceber também que a maioria dos sambistas do país, por exemplo, o músico Arlindo Cruz, traz em seu pescoço um colar dos cultos do candomblé.
Porém, uma entrevista que assisti na rede Canal Brasil, no dia 6 de fevereiro deste ano, no programa Mostra Carnaval, provou para mim aquilo que há anos deduzia: o carnaval é um evento fortemente religioso sim.
O entrevistado, especialista em carnaval, dizia que as escolas de samba são uma verdadeira religião. Dizia ele que cada bateria de escola tem um ritmo próprio que a diferencia das demais. Este ritmo próprio é escolhido pelo candomblé, porque cada ritmo é uma música de invocação há uma “entidade” do candomblé ou umbanda. Segundo os exemplos dados pelo entrevistado, a escola de samba Salgueiro tem como guia Ogúm, a Portela Exú, e assim toda “escola” é dirigida espiritualmente por uma “entidade” que ao ser invocada atinge todos os ouvintes, mesmo os não-crentes. Além disso, o entrevistado disse que as baianas e tudo que há num desfile, inclusive as cores, são oferecidas à “entidade” do culto afro em questão. Portanto, cada desfile é um ritual de invocações, louvores, oferendas e consagração a todas “entidades” do candomblé e umbanda.
É certo que o carnaval no Brasil se diferencia de região para região, mas há em todo país um pouco das escolas de samba do Rio de Janeiro. É como as tendências de moda. A cidade de Milão na Itália e Paris na França lançam uma moda que estará no vestuário do mundo inteiro, muito embora modificadas segundo o costume de cada região, mas com semelhanças significativas.
O fato é que a estética do evento afro-religioso do carnaval não é como de um evento religioso cristão. Isto é, o carnaval é um evento religioso que não mostra claramente que é. Diferente das procissões, festas de padroeiros e missões populares dos católicos, onde é revelado expressamente em cantos e pregações a intenção de converter as pessoas. Os dirigentes maiores da umbanda e do candomblé não tem uma intenção direta de fazer com que todo brasileiro se torne um religioso dos cultos afros. Mas sua ideologia é levar a todos a invocação espiritual de suas “entidades”, a fim de que sejam aceitos sem preconceitos e sem medos.   
Uma coisa preciso concordar, entenda, que os primeiros adeptos do candomblé e da umbanda foram extremamente criativos e perspicazes. Eles utilizaram o carnaval (já existente há séculos) para levar um país inteiro a experimentar o que acontece em seus terreiros. Isto é, fez com que a grande maioria do povo brasileiro durante os 4 dias de carnaval, fosse co-participante de seus ritos sem perceber nada. Repito, em matéria de marketing e massificação religiosa, a umbanda e o candomblé estão anos-luz de nós católicos, como também dos evangélicos. E outra conseguem movimentar bilhões e bilhões de reais, envolvendo desde autoridades máximas ao povo em geral e toda mídia brasileira. Para se ter uma idéia a maior audiência da rede Globo no ano é o carnaval.
Contudo, não precisamos ficar inquietos pensando em grandes eventos ou fórmulas midiáticas para levar Jesus Cristo. A maior estrutura de expandir o Evangelho ao mundo consiste na santidade. Maior e mais poderoso que o carnaval da umbanda e candomblé será você, sendo santo. Em cada um de nós há uma única fórmula de sacudir o mundo: a santidade. Somente a santidade. Sem confetes. Nem plumas. E muito menos paetês.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Lc 5: suar e chorar, um bom pós-operatório

            A Formação do Coração de quarta-feira, dia 30 de novembro de 2011, foi meditado o capítulo 5 de Lucas. Este capítulo relata uma série de milagres de Jesus Cristo. Porém, o Espírito Santo revela milagres mais profundos do que o milagre que olhos humanos podem ver. Os milagres que os olhos vêem claramente no Evangelho carregam grandes graças, muitas vezes invisíveis.

O primeiro milagre foi o da pesca milagrosa (5,4-10). Junto a este milagre havia uma graça grandiosa: o quase rompimento das redes. Pedro experimentou grandes dificuldades em puxar a redes para não se romper.

Foi assim na vida do leproso que foi curado por Jesus (5, 12-16). Depois do milagre Jesus ordenou duas coisas difíceis a ele: ficar calado e ir se apresentar ao sacerdote. Isto porque o sacerdote emitia uma declaração pública de repúdio a todo leproso. Isto é, o leproso era a pessoa mais repudiada pelo sacerdote.

Assim foi com o paralitico curado por Jesus; ele experimentou a dificuldade de ir embora para casa carregando sua maca a pedido do próprio Cristo (5, 17-26). A maior lembrança da paralisia era a maca, agora curado, ele jamais desejaria se aproximar dela.

Essas dificuldades atrás de todos os milagres de Jesus são os “pós-operatórios”. Não há nenhuma cirurgia no corpo que não seja acompanhada de um cuidadoso “pós-operatório”, ou seja, regimes, exercícios, mudança de hábito bem feitos são mais poderosos na cura do que a própria operação. Uma boa cura vem de uma boa recuperação.

Todo milagre de Jesus exige um “pós-operatório” da alma. É nesse “pós-milagre” que consiste a conversão do cristão, porque é dali que a alma do fiel ganhará força na fé. Afinal acreditar em milagre todo ser humano acredita, inclusive o ateu quando está prestes a morrer. Mas, é depois do milagre que a graça vale a pena; se o milagre salva um  homem, o pós-milagre salva a humanidade por um. Porque é no “pós-operatório” que Jesus ressuscita e forma outros “Cristos”, como fez com Pedro que foi chamado a ser pescador de homens. O milagre invisível do pós-milagre ressuscitar novos “Cristos”.

Esse capítulo 5 termina numa proposta de “pós-operatório” brilhante: colocar vinhos novos em odres novos, novo no novo (5,33-39). O que é velho dever ser superado, o que acostumamos deve ser mudado, mesmo que tudo fora bom. Isto significa que depois da experiência de Jesus é natural tudo caminhar para mudanças. Não há como experimentar Jesus e continuar experimentando as velhas amizades, nos velhos lugares, com a vida velha de sempre. Os amigos poderão ser os mesmos depois de Jesus, porém, renovados, se aceitarem. Caso contrário haverá muito suor no “pós-opertório”, ou às vezes, suor com choro.