Sinceramente há muito tempo tive a curiosidade de estudar profundamente o carnaval no Brasil. Mas pensava: estudar para que? Visto que o Carnaval é claramente uma festa da cultura brasileira; ponto final. Ledo engano. O carnaval é o maior evento religioso do mundo. Um evento que não é cristão e muito menos católico. É maior que o ramadã islâmico, que a páscoa dos católicos e a marcha para Jesus dos evangélicos. Isto porque o carnaval é o auge da manifestação dos cultos de candomblé e umbanda contagiando uma nação inteira.
Se você conseguir recordar, lembrará que a maioria das escolas de samba em seus enredos fazem alusões a orixás e outras expressões dos cultos afros. A maioria dos carnavalescos (responsáveis maiores pelas escolas de samba) são filhos-de-santo (título dado a um participante fiel dos cultos do candomblé ou umbanda) ou pais-de-santo. Também vai lembrar que um dos carnavalescos das escolas do Rio de Janeiro em entrevista ao vivo no Bom Dia Brasil (programa da Rede Globo), na segunda ou terça-feira de carnaval do ano passado, estava vestido de vermelho e pé descalço. Ele dizia na ocasião que uma das “entidades” do candomblé teria pedido a ele para vestir daquela maneira. Vai perceber também que a maioria dos sambistas do país, por exemplo, o músico Arlindo Cruz, traz em seu pescoço um colar dos cultos do candomblé.
Porém, uma entrevista que assisti na rede Canal Brasil, no dia 6 de fevereiro deste ano, no programa Mostra Carnaval, provou para mim aquilo que há anos deduzia: o carnaval é um evento fortemente religioso sim.
O entrevistado, especialista em carnaval, dizia que as escolas de samba são uma verdadeira religião. Dizia ele que cada bateria de escola tem um ritmo próprio que a diferencia das demais. Este ritmo próprio é escolhido pelo candomblé, porque cada ritmo é uma música de invocação há uma “entidade” do candomblé ou umbanda. Segundo os exemplos dados pelo entrevistado, a escola de samba Salgueiro tem como guia Ogúm, a Portela Exú, e assim toda “escola” é dirigida espiritualmente por uma “entidade” que ao ser invocada atinge todos os ouvintes, mesmo os não-crentes. Além disso, o entrevistado disse que as baianas e tudo que há num desfile, inclusive as cores, são oferecidas à “entidade” do culto afro em questão. Portanto, cada desfile é um ritual de invocações, louvores, oferendas e consagração a todas “entidades” do candomblé e umbanda.
É certo que o carnaval no Brasil se diferencia de região para região, mas há em todo país um pouco das escolas de samba do Rio de Janeiro. É como as tendências de moda. A cidade de Milão na Itália e Paris na França lançam uma moda que estará no vestuário do mundo inteiro, muito embora modificadas segundo o costume de cada região, mas com semelhanças significativas.
O fato é que a estética do evento afro-religioso do carnaval não é como de um evento religioso cristão. Isto é, o carnaval é um evento religioso que não mostra claramente que é. Diferente das procissões, festas de padroeiros e missões populares dos católicos, onde é revelado expressamente em cantos e pregações a intenção de converter as pessoas. Os dirigentes maiores da umbanda e do candomblé não tem uma intenção direta de fazer com que todo brasileiro se torne um religioso dos cultos afros. Mas sua ideologia é levar a todos a invocação espiritual de suas “entidades”, a fim de que sejam aceitos sem preconceitos e sem medos.
Uma coisa preciso concordar, entenda, que os primeiros adeptos do candomblé e da umbanda foram extremamente criativos e perspicazes. Eles utilizaram o carnaval (já existente há séculos) para levar um país inteiro a experimentar o que acontece em seus terreiros. Isto é, fez com que a grande maioria do povo brasileiro durante os 4 dias de carnaval, fosse co-participante de seus ritos sem perceber nada. Repito, em matéria de marketing e massificação religiosa, a umbanda e o candomblé estão anos-luz de nós católicos, como também dos evangélicos. E outra conseguem movimentar bilhões e bilhões de reais, envolvendo desde autoridades máximas ao povo em geral e toda mídia brasileira. Para se ter uma idéia a maior audiência da rede Globo no ano é o carnaval.
Contudo, não precisamos ficar inquietos pensando em grandes eventos ou fórmulas midiáticas para levar Jesus Cristo. A maior estrutura de expandir o Evangelho ao mundo consiste na santidade. Maior e mais poderoso que o carnaval da umbanda e candomblé será você, sendo santo. Em cada um de nós há uma única fórmula de sacudir o mundo: a santidade. Somente a santidade. Sem confetes. Nem plumas. E muito menos paetês.